O Demonologista, Andrew Pyper

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Sinopse oficial: David Ullman é um renomado e cético professor da Universidade de Columbia, especializado na figura literária do Diabo. Ao aceitar um convite para testemunhar um suposto fenômeno sobrenatural, ele começa a ter motivos pessoais para mudar de opinião.

   Tem muito o que falar de um dos livros da Darkside Books, a começar pela aparência. O acabamento emborrachado, a lateral em padrão de impressão que imita madeira e a ausência de sinopse na parte de trás do livro são um espetáculo à parte. Nunca mais eu tinha visto um marcador de página de fita acoplado ao livro, coisa que adoro. O nome e o símbolo da editora são em dourado brilhante, assim como outros detalhes (como o nome de Gillian Flynn abaixo de sua crítica, na capa). Seria uma decepção se a história das páginas grossas e bem estruturadas não fosse igualmente excelente. Mas é. E lá vem polêmica, porque já aviso: muita gente odiou!        
   Superficialmente, O Demonologista pode parecer apenas um terror psicológico muito bom, mas ainda assim apenas um terror. Na realidade é muito mais do que isso: um verdadeiro mundo de metáforas e reflexões é construído a cada capítulo. Vale aqui uma observação sobre a escrita de Pyper: eletrizante. Um acontecimento atrás do outro, sem espaço para detalhes dispensáveis. Tudo o que é retratado na história é relevante, fazendo com que ela flua de forma muito rápida e gostosa.

   David Ullman narra sua história em primeira pessoa. Um personagem depressivo complexo, cheio de mágoas, sarcasmo, angústias e dores. E por incrível que pareça, mesmo com essa amargura toda... É impossível não torcer por ele. A jornada de David para salvar a filha das garras do inferno é guiada pelo poema Paraíso Perdido, de John Milton. Muita gente começou a desgostar bem aqui, no comecinho... Não achei que ter a história baseada em um poema deixou a história enfadonha. David é melancólico como boa parte dos depressivos, e acharia esquisito se ele fosse todo feliz resgatar sua filha de demônios.

   Felizmente, não é necessário ser especialista em literatura inglesa para entender muito bem a relação entre os versos do poema (claramente mostrados no livro quando necessário) e os passos de David em direção a Tess. As notas da tradutora são bem minuciosas, não deixando escapar nenhum pormenor. Mesmo que o leitor de O Demonologista jamais tenha ouvido falar em John Milton, ele é capaz de se sentir totalmente por dentro da história. Todas as cenas são bem descritas e a maioria delas tira o sono; o suspense do livro é mais do que bem sucedido, é brilhante ao conectar aspectos físicos dos acontecimentos com impressões psicológicas de David.



   Algumas ilustrações bem trabalhadas, o visual do livro como um todo e detalhes como o nome dos capítulos escrito em latim contribuem muito para a atmosfera pesada que ele carrega. Não que seja um livro denso ou cansativo - muito pelo contrário, mas a cada momento de leitura Andrew Pyper mostra que não estava pra brincadeira quando resolveu escrever um livro que falasse sobre o sobrenatural. Aquele frio na espinha que é possível sentir normalmente em filmes é perfeitamente atingível nos os momentos mais decisivos do livro. Um deleite para quem, como eu, aprecia um bom suspense.
   Eu sei o que vocês estão pensando: essa é a resenha mais longa do blog até agora. Isso se justifica pela complexidade do livro, seus inúmeros cuidados e principalmente... O final. O tão polêmico final.

   Admito que tenho uma grande queda por conclusões abertas: adoro filmes onde o vilão olha para a câmera no final e lança aquela piscadinha ou livros como Dom Casmurro, em que não há apenas uma verdade ou versão absoluta para o que está escrito. Resumindo: adoooro polêmica! Mesmo receptiva para esses desfechos inconclusivos, o final de O Demonologista abalou minhas estruturas.


   Para não dar spoiler, vou adiantar apenas que há muitas teorias e interpretações para o encerramento da história de David e Tess. Há quem defenda que nem ele nem Satã saíram vitoriosos e há outras versões, que dizem que um dos dois conseguiu o que queria no final do livro. Particularmente, acredito que Andrew Pyper tinha justamente esse propósito: oferecer muitas interpretações possíveis do mesmo final. Eu li e pensei sobre muitas teorias e nem ao menos consigo escolher a minha preferida. Muitas são plausíveis e a grande maioria é de qualidade inquestionável.
   Com tantos e tantos lançamentos, vertentes e estilos, Pyper conseguiu a façanha de causar polêmica com a capa, o enredo e o final de sua história. Não poderia ter impressões melhores de O Demonologista, e com certeza vale o lugar na estante dos que estão dispostos a mergulhar em uma baita estória cheia de aventura, suspense, inteligência, surpresas e emoções sobrenaturais.


Classificação final




1 comentários:

  1. Parabéns Ana! Sua resenha foi perfeita, você falou de cada detalhe, uau!
    Adorei e quero esse livro desesperadamente, tbm amo livros de terror/suspense. São ótimos!
    Bjs
    www.curiosametamorfose.blogspot.com.br

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Criado por: Maidy Lacerda
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