Battle Royale, Koushun Takami

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

 

 Sinopse: Em um país totalitário, o governo cria um programa anual em que uma turma do ensino fundamental é escolhida para participar de um jogo. Os estudantes são levados para uma área isolada, onde recebem um kit de sobrevivência com uma arma para se proteger e matar os concorrentes. Uma coleira rastreadora é presa no pescoço de cada um deles. O jogo só termina quando apenas um estudante restar vivo.
   Ao final do Programa, o vencedor é anunciado nos telejornais para todo o país. As regras do jogo foram criadas de maneira que não haja uma forma de escapar. E a justificativa da matança é mostrar para a população como o ser humano pode ser cruel e como não podemos confiar em ninguém – nem mesmo no nosso melhor amigo da escola. (sinopse por: CPL)

   O Domingando de hoje é mais do que uma indicação de leitura para o fim de semana - até porque é muito difícil passar os olhos pelas 664 páginas de Battle Royale em apenas dois dias. Não é para menos: o best-seller oriental de Koushun Takami merece muito mais que uma breve leitura. Battle Royale é daqueles livros que chocam, intimidam, hipnotizam e acorrentam mais a cada capítulo.


   O livro ganhou tradução no Brasil somente ano passado, mas já faz um sucesso estrondoso no mundo todo (especialmente no Japão) há quase 10 anos. Prova disso é que já existe mangá e um filme bem antigo baseado na obra - cada um com suas particularidades. Hoje vamos conversar sobre os motivos pra você dar uma chance pra esse monstrão de mais de 600 páginas: e vai por mim, vale a pena.

O PRIMO REVOLTADO DE JOGOS VORAZES

   Muito se fala sobre as semelhanças entre Jogos Vorazes e Battle Royale. Suzanne Collins disse em uma entrevista que só foi conhecer o livro japonês quando já estava com boa parte da saga do tordo escrita... Por outro lado, alguns fãs de Battle Royale chegaram até a acusar a moça de plágio. Deixando essa questão de lado, vale pontuar que Battle Royale e Jogos Vorazes possuem semelhanças muito leves, embora possa parecer o contrário. 

Em Battle Royale, os personagens são muito mais complexos. São trabalhados aspectos psicológicos de cada um dos 42 estudantes da classe, ainda que de forma sutil em alguns casos. Cada personagem possui pontos de sua personalidade expressos em algum momento do livro, baseados em histórias de vida também apresentadas ao leitor. O adentramento psicológico é gritante: você não apenas sabe quem tem maiores tendências assassinas, mas sabe o por quê. Por incrível que parece, Koushun consegue conduzir tudo isso da forma mais natural e dinâmica possível, fazendo você não se cansar de descobrir mais sobre tantos personagens.

Aliás, aí está outra divergência entre as duas obras: em Battle Royale, os competidores se conhecem e convivem há muito tempo, o que cria uma atmosfera ainda mais tensa pro jogo do mata-mata. Do ponto de vista literário, é muito mais fácil criar no leitor um sentimento de tensão quando ele se imagina inserido naquela situação, certo? Imagine então que você tenha que disputar sua vida com desconhecidos ou conhecidos casuais (o que ocorre em Jogos Vorazes). Em outra situação, você precisa matar ou ser morto por seus colegas de classe, vizinhos ou amigos de infância. É claro que ninguém quer sair distribuindo facadas e tiros por aí (eu espero), mas o peso de uma ligação emocional é enorme: Takami usa bem isso.

A atmosfera romântica em Battle Royale é quase oposta ao que encontramos na obra de Suzanne. Minha vaga noção em literatura japonesa me fez prever o mel que determinado personagem tem, já que isso é extremamente comum nos mangás, livros e outras artes da terra do sol nascente. Entretanto, os bem dosados momento de romance não se parecem em nada com o triângulo Peeta x Katniss x Gale: se em um parágrafo a doçura brota, no outro o sangue jorra. Literalmente.

  O jogo em si é um pouco diferente. Em Jogos Vorazes, é teoricamente possível para um competidor permanecer escondido durante todo o jogo - tanto é que a habilidade de Peeta em se camuflar é bem explorada. Em Battle Royale isso é bem diferente: cada jogador usa uma coleira que explode se ele ficar nos quadrantes proibidos, áreas específicas que mudam a cada intervalo de tempo e que o leitor também sabe onde fica graças a edição do livro, que conta com um mapa. Além disso, cada participante recebe um tipo diferente de arma, que vai de metralhadora a garfo de cozinha. Também não há a ajuda de patrocinadores ou a possibilidade de fuga: cada ponta da ilha é guardada por soldados, e a coleira também explode caso seja detectada sua retirada ou perda do sinal (fuga do participante).

A MARIONETE EMOCIONAL: O PAPEL DO LEITOR A CADA CAPÍTULO

   O excelente trabalho da Editora Globo vai além da capa com pontos em alto relevo. Logo de cara, é apresentado um mapa da ilha onde toda a história acontece e uma lista de chamada, com o nome e sexo de cada um dos estudante. Para quem está mais acostumado com nomes americanos ou tupiniquins, é absolutamente normal a dificuldade em assimilar os nomes próprios japoneses, muito semelhantes entre si.

   Contudo, logo nos primeiros capítulos é fácil distinguir um personagem do outro por suas características psicológicas. Sem perceber, você acaba rotulando um pouco cada um dos estudantes: o psicopata, o sensível, a ingênua... De repente, todos esses rótulos caem por terra bem debaixo do seu nariz. Koushun sabe dar um tapa na cara do leitor, mostrando que todo mundo tem seu lado mal e que os instintos humanos são poderosos e surpreendentes.

   Isso significa que sim, Battle Royale é pesado. Sangrento, objetivo, arrebatador. Corte pra lá, tiro pra cá, gente bolando estratégias incríveis pra sobreviver. No meio de tudo isso, há críticas a sociedade e ao governo. Cabe tudo isso em um livro? Quando ele é genial cabe, sim. Mas se você tem estômago muito fraco ou se impressiona facilmente, é melhor se preparar um pouco antes de mergulhar nas páginas do livro japa. 

COMO UM LIVRO TÃO GRANDE CONSEGUE PRENDER DO INÍCIO AO FIM

✘ Narrativa inteligente
   Em Battle Royale, a narrativa é alternada e os capítulos terminam de forma impactante. Isso implica em uma curiosidade sem fim, pois quando se está preso a uma cena o capítulo seguinte desenrola justamente a outra. Apesar de toda feita em terceira pessoa, a narração é profunda e pessoal e é muito fácil se identificar, simpatizar ou temer muitos dos participantes do jogo.

✘ Surpresas na trama
   O nome do livro se refere a um momento tradicional em esportes de luta, no qual os oponentes restantes se enfrentam até que reste apenas um deles. O que acontece (especialmente no final) é que achamos que já sabemos quem e como vai ganhar. Em determinados momentos temos a plena certeza de que já pegamos o espírito da coisa e deciframos a história por completo. Acredite, você estará enganado.

✘ Começo perturbador
   Logo nos primeiros capítulos, Battle Royale surpreende e mostra que Koushun Takami não estava para brincadeiras quando o escreveu. O bicho pega logo de cara, com mortes inesperadas de personagens que pareciam durar até o último capítulo, detalhes impiedosos sobre sangue escorrendo, facas entrando e armas zunindo. 

✘ Metáforas e reflexões geniais
   Battle Royale alfineta sobre a capacidade humana de ser egoísta. Discute o quanto podemos nos enganar a respeito dos outros e até a respeito de nós mesmos. Além disso, sugere até onde o ser humano é capaz de chegar para salvar a si mesmo - e eu sou capaz de apostar que Koushun não estava falando apenas de vida no sentido biológico da coisa.

Depois de falar tanto sobre, não me resta mais nada a dizer a não ser que Battle Royale é, definitivamente, um dos meus livros favoritos. Recomendadíssimo para ler em algum momento desse ano que está começando! Nos vemos nos próximos posts. Beijos!



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Criado por: Maidy Lacerda
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