A Montanha e o Rio, Da Chen

sexta-feira, 24 de junho de 2016


Sinopse oficial: narra a saga de dois irmãos que trilham caminhos distintos, mas cujas vidas se encontram quando se mesclam inevitavelmente aos acontecimentos que marcam a história política e social da China no final do século XX. Numa trama repleta de conspiração, mistério e paixão, Tan e Shento se tornam inimigos ferozes tanto no campo político quanto no pessoal, pois por um capricho do destino se apaixonam pela mesma mulher. Com esta história envolvente que levou oito anos para ser concluída, Da Chen, conhecido por suas obras memorialísticas, faz sua primeira incursão pela área da ficção. A marca dele está cem por cento presente nesta narrativa que possui também traços do romance histórico e é perpassada pelas milenares tradições do Oriente e suas relações com o mundo ocidental. 

   A Recomendação de leitura para você começar (ou quem sabe fazer completa!) nesse fim de semana é um tanto quanto... Exótica. Digamos que seja muito difícil encontrar pela blogosfera atual, mesmo em blog literários, uma resenha sobre um livro tão expressivo quanto A Montanha e O Rio. Por isso mesmo (e por acreditar fortemente no poder envolvente dele) é que resolvi indicá-lo pra vocês no Domingando dessa semana. 


   A literatura oriental, já aviso, tem traços diferentes da que estamos acostumados. Esqueça os romances suaves e cheios de nuances; o primeiro capítulo de A Montanha e o Rio já começa com um suicídio. É uma escrita filosófica, profunda mas ao mesmo tempo leve durante toda a história, e faz você se achar muito intelectual por conseguir acompanhar uma leitura desse porte. Sabe quando nos achamos super cultos simplesmente por ler ou assistir alguma coisa diferentona, cheia de referências históricas quem nunca? Pois é. Muita gente não vê grande diferença, é verdade, mas eu confesso que toda vez que leio um livro escrito por algum asiático consigo notar logo de cara as diferenças na narrativa, no uso das palavras e na escolha de questões a serem trabalhadas. Com Da Chen não foi diferente. Um dos meus livros favoritos (Battle Royale lindo, maravilhoso e sangrento, tem post especial sobre ele aqui) tratou os personagens com tamanho entusiasmo, detalhismo e ao mesmo tempo com tamanha sutileza que eu não pude deixar outro livro asiático passar despercebido. Dei início a um chinês, desta vez.

   Bom, a narrativa é naquele esquema alternado (não sei vocês, mas eu simplesmente amo quando o autor sabe jogar com isso). Tan é mais racional, inflexível e teimoso do que Shento, o irmão muito mais sentimental e emotivo. É muito difícil simpatizar com Tan logo de cara, mas o livro vai mostrando aos poucos os eventos que o transformaram em um cara tão sisudo. Os encontros entre os dois irmãos são carregados de tensão e o enredo que a primeira vista pode parecer meio clichê se torna surpreendente e energizante. 

   A reforma política da China é um contexto histórico-econômico muito cheio de possibilidades para a ficção, mais ou menos como estamos acostumados a ler histórias que se passam no holocausto. Contudo, por ser menos trabalhado (especialmente aqui no Ocidente), é bacana dar de cara com acontecimentos históricos que você não conhecia: expande sua mente sem pesar e sem você sentir que está assistindo a uma videoaula. Paralelo a tudo isso, as emoções que os dois irmãos, a camponesa por quem se apaixonam e demais personagens são muito profundas e claras. Tudo no livro é uma filosofia, uma metáfora, uma insinuação. É gostoso lidar com as possibilidades e diferentes interpretações, e quando se vê você já não consegue mais deixar de acompanhar quem afinal vai ganhar o coração da mocinha (nem tão mocinha assim), quem vai "ganhar" a guerra e outras questões obviamente mais profundas e instigantes.

   Fica aqui a dica diferentona pro seu fim de semana. Experimenta e me conta o que achou? Um grande beijo e até segunda! 


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Criado por: Maidy Lacerda
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