Especial MBY #5 - Eu amo alguém depressivo. E agora?

quarta-feira, 22 de junho de 2016


   Louisa Clark tem certeza de que pode convencer Will a enxergar a vida de forma positiva. Ela tem a convicção de que pode mostrar a ele todos os aspectos bons de continuar lutando, todos os sorrisos que ele ainda pode dar e todas as aventuras que ele ainda pode viver, mesmo após o acidente. Contudo, o que Louisa se esqueceu (e preciso dizer que aparentemente muitos leitores de Me Before You também) é que Will muito claramente fica depressivo após o acidente. E o que isso muda? Tudo. Esse último post do Especial Me Before You é muito delicado. Vamos conversar sobre o que é amar alguém que tem depressão assim como...Will Traynor.


   Um dos principais fatores de eu ter gostado tanto da história talvez seja justamente esse: o retrato fiel e plausível de alguém com depressão. As pessoas estão muito acostumadas a pensar que é um quadro que pode ser revertido por qualquer grande novidade boa, como acontece com Louisa ao achar que o que o amor que ela vive com Will é capaz de fazê-lo se sentir bem novamente. Eu vi muita gente dizendo que achou Will egoísta e impiedoso. Será?

   O que acontece é que a depressão impede que a pessoa enxergue o quanto algo pode ser maravilhoso, mesmo que ela saiba disso racionalmente; seu cérebro é literalmente alterado e ela passa a responder de forma muito menos intensa a estímulos que a fazem felizes. Will ama Louisa e isso é fato, mas ele não sente que isso (ou qualquer outra coisa) é suficiente para fazer com que tudo valha a pena. Uma pessoa depressiva sente que nada é suficientemente valioso para que ela seja feliz: não por egoísmo, mas por cansaço. E é por isso que estar no papel de Louisa (ou dos pais de Will, de Nathan ou de outras pessoas que o amam) é tão complicado.

   Ter depressão não é frescura. A doença afeta fisicamente; talvez esse seja mais um motivo pelo qual Will fica doente tantas vezes, pois muitos depressivos desenvolvem alergias, problemas respiratórios e digestivos com muita frequência: o nível de estresse favorece o surgimento de complicações. Mas então, o que fazer quando estamos do outro lado? Quando somos a Lou?

 

    Amar um depressivo é provavelmente uma das situações mais nobres e difíceis que alguém pode enfrentar. Você pode sentir que está nadando contra uma correnteza invencível. As pessoas com depressão são, no geral, muito difíceis de lidar: são irritadiças a maior parte do tempo e podem ver em um pequeno acontecimento triste um motivo para se tornarem ainda mais reservadas. Muita gente acha que a depressão está melhorando porque o doente se diverte, parece alegre ou faz piadas: infelizmente, na maior parte das vezes as pessoas com depressão desenvolvem (ainda que sem querer) uma espécie de personagem, porque as pessoas simplesmente se cansam de companhias tristes. Também muitas vezes, os depressivos procurar se distrair em busca da cura: o que pode funcionar de vez em quando, mas geralmente culmina em crises de choro e muita frustração depois das tentativas. Pois é aí que está o principal conselho para quem ama uma pessoa que tem depressão:

   Fique do lado dela. Como Lou ficou de Will: até o último instante, até quando não parece certo. 

   Exige muita paciência e muito, mas muito amor envolvido, exatamente como na história de Moyes. É difícil oferecer um carinho a alguém que parece arredio, mas normalmente os depressivos se tornam agressivos como uma forma de defesa; imagine escutar coisas como Você está triste de novo? ou Você não tem motivos para chorar, que frescura! todas as vezes em que você decide se abrir com alguém. É desafiador amar alguém que não ama a própria vida, mas seu esforço pode impedir que o quadro piore ainda mais. Ajuda profissional é importantíssima, mas muitos depressivos não percebem que precisam dela. Muitas vezes, se torna uma dor insuportável simplesmente o fato de acordar vivo. Você pode ser a razão dele não desistir. O importante é tentar. 

   Ter depressão é um desafio para quem tem e para quem convive com um doente. É desgastante, é dolorido e muitas vezes acaba machucando imensamente pelo menos uma das duas partes de forma definitiva. O que se pode fazer? Bom, como o pai de Lou aconselha...
   Apenas ame. Ame de verdade e tente até onde sentir que vale a pena. Vejo vocês no próximo post.

(Agradecimentos especiais a psicóloga Simone Cardoso, que me ajudou durante um tempo do meu tratamento e à escrever esse post. Algumas informações podem ser encontradas e aprofundadas no livro O Demônio do Meio-dia - Uma Anatomia sobre depressão, de Andrew Solomon)


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Criado por: Maidy Lacerda
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