Suicidas, Raphael Montes

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Sinopse oficial: Um porão, nove jovens e uma Magnun 608. O que poderia ter levado universitários da elite carioca - aparentemente sem problemas - a participar de uma roleta russa? Um ano depois do trágico evento, que terminou de forma violenta e bizarramente misteriosa, uma nova pista, até então mantida em segredo pela polícia, ilumina o nebuloso caso. Sob o comando da delegada Diana Guimarães, as mães desses jovens são reunidas para tentar entender o que realmente aconteceu, e os motivos que levaram seus filhos a cometer suicídio. Por meio da leitura das anotações feitas por um dos suicidas durante o fatídico episódio, as mães são submersas no turbilhão de momentos que culminaram na morte de seus filhos. A reunião se dá em clima de tensão absoluta, verdades são ditas sem a falsa piedade das máscaras sociais e, sorrateiramente, algo maior começa a se revelar.




   Conheci o trabalho do Raphael Montes ano passado e indiquei seu livro O Vilarejo pra ler no fim de semana, lembram? Fiquei apaixonada com a narrativa e a capacidade dele de envolver o leitor, e desde então os outros livros dele (Suicidas e Dias Perfeitos) entraram definitivamente na minha lista de desejos. Essa semana, com a chegada do Kindle que ganhei de presente (pensa numa pessoa feliz), dei uma guinada nas minhas leituras pendentes e resolvi colocar no topo da lista o aparentemente menos famoso (mas super premiado!) Suicidas. Confesso que tive um medinho de ser um daqueles livros que a crítica fala bem, que ganha vários prêmios mas... Não rola. Eu tenho um verdadeiro talento pra não achar graça em filmes e livros aclamados pela crítica. Bom, vamos falar do que interessa?


    Os nove universitários têm perfis bem interessantes. Alessandro, inteligente e articulado, é quem conduz a narrativa inicialmente. Mais pra frente, percebemos que existe ainda outras duas linhas de narração: em terceira pessoa, contando o que acontece na reunião das mães e a transcrição do livro que Alessandro escreveu durante o episódio principal do livro. Parece confuso? Pois eu digo: a escrita de Montes é simplesmente viciante e arrebatadora. Alguns capítulos depois, você se acostuma com o estilo do livro: uma espécie de série com vários núcleos diferentes, e não consegue mais desgrudar das páginas.

    Mas peraí... Nove jovens se matando em um porão? Que chocante! Bom, isso não é nem a ponta do iceberg. O livro tem tantas atrocidades narradas e tantos acontecimentos surpreendentes e bombásticos que em alguns momentos uma pausa para respirar é simplesmente indispensável. Uma das cenas em especial (envolvendo a ruiva Ritinha e um dos rapazes) me deu uma certa ânsia de vômito tamanho o número de detalhes daquela bizarrice. É inegável que Montes tem um talento sobrenatural para o macabro, para chocar. Ele faz críticas muito sutis durante toda a história, mas que não passam despercebidas em meio a um mar de sangue e mau caratismo dos personagens.

   Sobre os personagens: Zak é um moleque! Imaturo, machista, mimado e muitas outras características que me fizeram revirar os olhos a cada vez que ele aparecia. Com o tempo, bate até uma certa piedade do rapaz, porque dá pra identificar uma falta de malícia - quase ingenuidade - nele. O melhor amigo de Zak, Alessandro, é obcecado por seu livro e pela ambição de fazer sucesso como escritor. Confesso que cheguei a sentir gratidão por ele, porque ele estava contando tudo tão bem e parecia não perceber onde estava se metendo... Na minha cabeça, ele seria responsável pelo desfecho da história e era apenas um cara sonhador, frustrado mas determinado. Contudo, conforme os acontecimentos foram rolando, eu confesso que detestei ele. Gritava mentalmente: faz alguma coisa, infeliz! Se mexe! Larga esse livro e ajuda!

   Otto foi um dos personagens que mais mexeu comigo. Ele enfrenta um obstáculo enorme para ser feliz, e é apunhalado pelas costas por quem confia. É por ele que Raphael faz uma crítica muito discreta à sociedade preconceituosa, mas não posso contar por quê sem rechear esse post de spoilers. O que vale a pena dizer é que Otto é simplesmente o retrato do julgamento por aparências e suas consequências, é um tapa na cara do costume que as pessoas têm de formar opinião primeiro e conhecer depois.

   Ritinha é uma patricinha irritante que me deu asco, mas ao mesmo tempo dona de uma futilidade sem maldade, de uma falta de experiência quase incômoda. A tal personagem bonita, mas pouco inteligente. Os outros todos são muito plausíveis e interessantes, deixando você ávido pelo próximo capítulo sem ao menos se dar conta das 488 páginas. Danilo, por exemplo, é um portador de Síndrome de Down que Raphael (ainda bem) não limitou à doença, mas expandiu com uma personalidade meiga e quase infantil. Uma das coisas que Suicidas ensina é que não se pode confiar em ninguém, nunca se conhece uma pessoa totalmente e que sim, você pode surpreendido. Muito, muito surpreendido.

   O desfecho... Ah, o desfecho. Confesso que minhas expectativas foram minando, minando... Até chegar (literalmente) nas últimas linhas. Gente, que reviravolta é essa? Raphael diz ao leitor: ei, espere, você ainda não sabe de tudo. Eu não sabia de nada há muito, apesar de desconfiada, mas mesmo assim superou minhas expectativas. Achei ardiloso, genial, grotesco, especial. É aquele livro para ficar na memória, para você debater com os amigos e ter pesadelos à noite. Simplesmente incrível! Esse ano ainda não li nada tão memorável, mas espero mudar esse quadro. Suicidas é daqueles livros que eu recomendo, recomendo e recomendo de novo. Agora entendo toda a fama do Montes. Ele merece mais! Experimentem e contem pra mim?

Classificação Final


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Criado por: Maidy Lacerda
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