Ovelha, Gustavo Magnani

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Sinopse oficial: Este livro, estreia impressionante de um jovem e talentoso escritor, é o relato pecaminoso de um decadente. A história de um homem religioso e carismático, temente a Deus, mas amante insaciável de sua própria carne exótica, a carne de outros homens. Um pastor gay, casado com uma ex-prostituta, filho de uma fanática religiosa. Neurótico e depravado. E agora condenado. Internado no hospital, debilitado e com um segredo de uma tonelada nas costas, este personagem atormentado decide libertar-se de seus demônios e relatar seu drama. Num relato cru e sem censura, ele literalmente vomita seus trinta anos de calvário e charlatanice na cara da congregação (e de qualquer um que se interesse por um bom inferno). Sexo, paranoia, corrupção e destruição são os ingredientes tóxicos dessa obra provocante, polêmica e inovadora.

   Ovelha: Memórias de Um Pastor Gay já é polêmica por si só, mas parece que o livro de estreia de Gustavo Magnani quer chocar muito, muito mais, e isso fica bem claro logo nas primeiras páginas. Sou muito questionadora em relação a religiões no geral, gosto de críticas bem construídas e sarcasmos bem colocados, e pensei que o livro de Gustavo seria uma grata surpresa em criticar a sociedade, as imposições religiosas, os preconceitos e muito mais de forma corajosa. Será que deu certo? Se você é evangélico, cuidado: a leitura dessa resenha (e principalmente da obra de Gustavo) pode te deixar desconfortável, portanto pense bem em clicar no Continue lendo aqui em baixo, ok? Dito isto, vamos lá.


  A narrativa é em primeira pessoa e o nome do protagonista só é revelado literalmente na última linha do livro, pois é uma espécie de triunfo na história. No começo isso resultou para mim numa falta de familiaridade com o personagem. Como eu iria simpatizar com alguém que nem mesmo sei o nome? Essa pergunta foi respondida ao longo dos capítulos, porque me sensibilizei com as histórias do pastor e acabei criando um sentimento... só não se era empatia ou curiosidade.

  Não sei se tenho toda essa facilidade com poesia e tramas cheias de arte, mas fiquei um tanto quanto confusa com a narração não linear. Demorou uns bons capítulos (leia-se metade do livro) para que eu ambientasse e conseguisse encaixar os acontecimentos na linha do tempo da história. Ainda assim, confesso que não ficou claro para mim em que ponto algumas coisas ocorreram... Talvez essa espécie de confusão seja algo proposital, porque o livro todo é mesmo escrito em formato de desabafo, de diário, e seria preciso muito sangue frio do personagem para que tudo fosse escrito em ordem perfeita ou que ele conseguisse explicar tudo isso de forma certinha. Outra coisa que me deixou bem desnorteada é que hora os nomes dos personagens são escritos em letra maiúscula, hora em letra minúscula, e não sei dizer se houve um critério para quando usar o quê. Até pensei que fosse um erro de edição ou algo do tipo, mas vi em muitos blogs a mesma observação, portanto é muito possível que isso tudo seja proposital. Que propósito? Bom, confesso não sei.

"Pregava aos desconhecidos quando seu próprio filho necessitava mais do que todos. Nunca pregou Cristo pra mim, pregou-me ao Cristo, sem chance de escape ou desamarra."

   Ovelha é um livro que choca. Não dá pra dizer que não. Há muito tempo (ou talvez nunca) eu não lia algo tão desbocado, cheio de palavrões, blasfêmias (muitas, devo dizer) e expressões bem específicas. Há cenas de sexo muito bem detalhadas, mas narradas de forma um tanto quanto informal: você se sente em uma conversa casual em que você é um amigo/psicólogo do personagem, que o tempo todo ressalta o quanto está moribundo, irritado e infeliz. Na minha opinião, somente isso não faz com o que o livro seja bom ou ruim: é preciso que esses elementos conversem com a temática, com o tipo de personagem... E sinceramente, acho que em várias partes isso não rolou. Fiquei com a impressão de que aquilo tudo era mais feito para polemizar e provocar do que para dar sentido a história ou caracterizar o personagem. É claro que um palavrão ou outro e uma gíria ou outra, sozinhos, raramente têm o poder de destruir ou transformar a história em uma obra-prima, mas acho muito chato quando leio algo e tenho a impressão de que aquela palavra ou aquela frase só está ali para causar polêmica e, portanto, para fazer um pouquinho mais de dinheiro.

"...evangélicos não oram pelos mortos - e seria uma bagunça se o fizessem! Já se metem na sociedade e na política, enfiar-se no mundo dos defuntos seria o fim de qualquer sossego."

   Por outro lado, Ovelha toca em alguns pontos interessantes: a pressão social, religiosa e seus preconceitos e imposições são discutidas de forma escancarada. Só quem vive o tormento de crescer em família fanaticamente religiosa sem ser religioso (ou até cometendo um "grande pecado", como o narrador do livro) sabe o quão difícil é, e nisso Ovelha promove até um certo conforto: essas pessoas, posso garantir, vão encontrar em muitos trechos uma lavagem de alma, pensamentos externados que não têm coragem ou não possuem mais forças para falarem. E é claro que quem procura uma boa polêmica poderá também se realizar!

   Fica aqui o meu convite - e o meu alerta - a quem deseja conhecer mais um jovem autor nacional.

Classificação Final


 

 

 


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Criado por: Maidy Lacerda
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